Era uma vez uma jovem e bela Ursa que vivia na floresta. Todos os dias, à caminho do rio, ela passava ao lado da cerca do chiqueiro da fazenda que haviam construído por lá. A Leitoa sempre que a via guinchava tentando chamar a atenção da Ursa, que acenava com a cabeça e continuava seu caminho. Os guinchados da Leitoa eram estridentes e não agradavam à Ursa que sempre evitava ficar de papo. A Leitoa tentava de tudo, berrava todos os tipos de assunto, desde "bom dia" até comentários sobre o tempo, e a Ursa nunca se interessava. Até que um dia a Leitoa pensou:
- Quem essa Ursa acha que é? Ela não pode me ignorar assim...
E ficou armando uma forma de se vingar da Ursa.
Ela acabou descobrindo que a Ursa parava ali por perto, pra conversar com os outros animais. A Leitoa foi até o cantinho da cerca, se escondeu e ficou esperando. A Ursa se encontrou com a Raposa e elas começaram a conversar:
- Olá Ursa!
- Oi Raposa, como vai?
- Ah, está tudo bem, só comer que anda complicado esses dias.
- É Raposa, as coisas não andam fáceis, tá difícil pescar também. Quase não têm subido mais salmões pelo rio...
- Uma lástima não?
- Ah, mas não se preocupe, é culpa da estação. Em breve isso passa. Vou pra casa agora descansar, amanhã é outro dia!
- Tchau Ursa!
Quando escutou isso a Leitoa correu para o outro lado da cerca e esperou a Ursa passar, quando a viu começou a guinchar:
- É Ursa! Ouvi dizer que você anda passando fome!
A Ursa olhou e ela continuou.
- Veja só quanta comida eu tenho! - enfiando o focinho na lavagem - Eu não passo fome!
A Ursa nada disse, virou o rosto e continuou seu caminho. A Leitoa não conseguia acreditar que a Ursa ainda não se importava. No dia seguinte foi de novo ao seu esconderijo escutar as conversas da Ursa.
- Olá Coruja!
- Como vai Ursa!? O que houve que seu pêlo está mais ralo hoje?
- Ah Coruja, está na época né? Agora é tempo dos pêlos velhos caírem e nascerem novos. Mas não se preocupe, em breve estarei com a pelagem normal.
- Que bom né Ursa! Então tchau! Nos falamos depois!
- Tchau Coruja!
A Leitoa correu novamente e esperou a Ursa aparecer para guinchar:
- Ô Ursa! Olha só! Seus pêlos estão caindo é? Pois veja os meus! Nunca caem!
A Ursa olhou, analisou bem a Leitoa fazendo pose pra mostrar os pêlos, virou o rosto e continuou seu caminho. A Leitoa podia jurar que tinha conseguido chatear a Ursa. Já começou a sonhar com a próxima zombaria.
No dia seguinte muitos Ursos chegaram naquela mata para cortejar as Ursas. A Leitoa ficou apertando os olhos pra ver se a Ursa ficaria com algum deles. Ao vê-la voltando sozinha colocou-se novamente a guinchar:
- Conseguiu ninguém não né Ursa! Olha só! Eu tenho um parceiro! - E puxou seu namorado Leitão da lama pra que a Ursa pudesse vê-lo. Um leitão não só sujo, como manco e cego de um olho. A Ursa olhou, olhou, pensou, quase falou, mas virou o rosto e continuou seu caminho.
A Leitoa já comemorava sua vitória sobre a Ursa. Ela achava que agora a Ursa morria de inveja dela. Estava tão humilhada que nem balbuciava uma resposta. No outro dia nem espreitou para escutar conversas, nem observou pra descobrir algo. Ao ver a Ursa já começou a guinchar:
- Veja só Ursa! Você é tão arrogante! Se achava tanto! Agora nem tem o que me dizer!
A Ursa, calmamente respondeu:
- Tenho sim, mas não digo porque acho desnecessário... Mas você tem insistido tanto, todos esses dias, que começo a desconfiar que você queira mesmo saber o que eu acho sobre você....
- Ah! Você morre de inveja que eu sei! Pode assumir!
- Aí é que você se engana. Quando passei aqui com fome e você berrava que tinha comida enchendo a boca de restos, de lixo, eu me lembrava que durante as altas de salmões, quando me dou ao luxo de comer apenas caviar, você continua aí, comendo lavagem.
A Leitoa não conseguia dizer nada, e a Ursa continuou:
- Quando passei aqui com meus pêlos ralos, caindo sem parar, você me mostrou essa pelagem dura que tem nas costas e me lembrou que minha linda e fofa pelagem é consequência da troca anual. E que mesmo quando eles estão grandes e brilhantes você continua com esses pêlos feios e grosseiros.
A Leitoa já não precisava escutar nada, mas a Ursa queria concluir:
- E quando eu passei aqui sozinha, você veio me exibir seu parceiro. E ele é como você, cada qual com seu igual. Me lembra que minha solidão se acaba quando eu encontrar um Urso forte e vistoso como eu.
A Ursa virou o rosto e rumou pra casa. A Leitoa nunca mais guinchou ao vê-la.
Moral da história: Não tente tripudiar sobre as mazelas da vida alheia. Pode ser que quem está na lama é você.