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Histórias alcoólicas.

Contos de quem beira a insanidade.

segunda-feira, maio 24, 2004

Acho que te amo 


E surgiu uma necessidade incontrolável dentro dela. Ela sentia que precisava descobrir tudo sobre ele. Então armou tocaia na esquina de sua casa. Todos os dias ela ficava ali esperando ele sair para o trabalho. O observava por todo caminho. Tirava fotos. Muitas. Todas. Quando ele entrava no prédio ela tinha o tempo cronometrado para voltar à casa dele e o conhecer. Revirava o lixo em busca de qualquer indício. Lista de supermercado anotada em uma nota fiscal, restos de comida... Mentalmente ela ia registrando todos seus gostos. Números de telefone. Uma foto. Uma maldita foto de mulher. Uma dedicatória em letras caprichosas. Meiguice. Corações. Ela se odiava por não saber se fazer meiga. Se fazer feminina. Ela se odiava por não ser aquela que, toda simplória, merecia o afeto dele. Vários recadinhos na mesma letra. E ela se lembrava da dor no pulso que todos os cadernos de caligrafia causaram. Com a dor dessa lembrança ela se livrava da culpa de não ter tentado. Tinha tentado sim e percebido logo ali que simplesmente era incapaz de escrever em letras delicadas de menina. Incapaz. A sua falha martelava sua respiração enquanto, tremendo, olhava o relógio e revirava lixo. Lixo. Como um rato. Um ser oriundo dos esgotos. Aquela loira de vestido florido jamais estaria disposta àquela humilhação por ele. E mesmo assim ela o tinha. Era hora de voltar. Acendeu um cigarro e partiu em direção ao edifício onde ele trabalhava.

Hora do almoço. O seguiu até o restaurante e sentou-se na mesa ao lado. O celular dele toca e ele conversa apaixonado, pede pra que a pessoa do outro lado lhe dê mais uma chance. Provavelmente era aquela loira. Maldita loira. Ele marcou algo para a noite. "Passa lá em casa...". Era a oportunidade perfeita. Os dois estariam juntos. E ele derramaria na loira seu amor unilateral. Só ele sabia amar. A mulher do vestido florido não era do tipo que vê algo além da própria imagem refletida em qualquer lugar. Até no reflexo da água do vaso sanitário ela devia se admirar. Era aquela noite. Tinha que ser.

Depois de segui-lo e fotografá-lo até perdê-lo de vista ela foi até a loja de pesca. Saiu de lá com uma 45. Voltou para esperá-lo sair do trabalho. Em algum momento se enxergou no retrovisor. Estava ali a prova de que ela nunca o teria. Um rosto que aparentava mais anos do que merecia. Um olhar sem brilho. Os lábios feridos de tanto mordê-los e ressecados pelos cigarros. Pele sem viço. Ela procurava a loira florida no espelho e lacrimejava. Ela sabia que nunca teria as regalias que a loira tinha. E estava disposta a acabar tudo naquela noite. Sem mais esperas. Sem mais querer saber dele todos os gostos e fazê-lo feliz. Caiu a tarde e ele foi pra casa. Ela foi junto, se esforçando pra não perder nenhuma chance de fotografá-lo. Ele entrou em casa e ela respirou aliviada. "A última espera".

Pouco depois da loira chegar um tiro. Polícia. Um corpo. Uma carta. Os policiais batem à porta dele:
- Senhor, sinto que temos uma má notícia...

Eles andam rápido até a rua. Até o carro:
- E ela te deixou essa carta senhor.

Ele leu a carta sem demora, a segurou tão forte que amassava as bordas do papel:
- Mas eu não entendo. Não entendo! Eu nunca vi essa mulher!

E abraçou sua linda namorada loira e florida que chorava horrorizada ao ver o cadáver.

posted by Lori  # 11:05:00 AM

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