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Histórias alcoólicas.

Contos de quem beira a insanidade.

terça-feira, março 16, 2004

Bob 


- Vai dormir menina! Vê lá se isso são horas!

- Ah nem... Você de novo?

- Não resmunga, tá tarde, você vai acabar tendo baixas de serotonina outra vez se voltar a trocar o dia pela noite.

- Já disse que eu te odeio?

Ele era uma criaturinha peluda, que volta e meia se agarrava no ombro dela e ficava falando o que ela devia ou não fazer.

- Não adianta você me odiar, você sabe que eu sempre vou ficar aqui.

- Sei nada, sei que quando eu encho a cara você desaparece! Cadê aquela pinguinha que me deram de presente... Hmmm...

- Não começa! São quase seis da manhã! Em plena segunda-feira!

- Hehehe, eu tô brincando, num vou beber não... Aliás, por que você some quando eu bebo?

- Coisas do AA.

- HAHAHAHA fala sério! Tem problemas com o alcolismo é?

- Mais ou menos, isso não importa.

- Claro que importa! Explica isso direito! Não pode ficar dependurado no ombro dos bebuns?

- Quando estão bêbados não... Vai que eles me derrubam e me perdem pra sempre? Já vi muitos acabarem assim! Mas sóbrios é claro que eu posso! O que você acha que eu tô fazendo aqui?

- Colé, tá me chamando de bebum? ... Conta uma novidade agora! HAHAHA!

- Sério menina! Vai dormir! Você não tem nem motivos pra estar acordada a essa hora. Nem tá fazendo nada de interessante?

- Sabia que eu gosto de um pouco de privacidade? Você podia parar de ler as minhas coisas...

- Não existe isso de privacidade comigo.

- E também eu detesto essa respiração atrás de mim. Eu posso te matar?

- Só se conseguir me pegar!

E eles começaram a brincar de pega. Quando a mão dela chegava ele desaparecia e já reaparecia em outro lugar. Até que ela cansou e voltou a olhar pro monitor e clicar inutilmente pela web.

- Mala...

- VAMO, VAMO, VAMO! Tá na hora de dormir!!!

- Num começa, se você ficar aí berrando é que eu nunca vou ter sono. Aliás, você tá me irritando. Sabia que isso só vai me deixar mais tempo acordada?

- Rainha da chantagem! Quero deixar claro que isso só funciona com sua família, você não vai me tapear com suas lógicas distorcidas não.

- Lógica distorcida... Ou! Você viu que massa esse fim-de-semana?

- Meu Deus! Massa? MASSA? Você chama aquilo de MASSA?

- Ahm, lógico né Bob.

- Oh céus, já vi. De nada adianta eu estar aqui tentando te colocar nos eixos. Eu aqui me esforçando, suando, acordado a essas horas! E você gosta de sair destruindo sua vida aleatoriamente.

- Não começa com drama vai. Isso me irrita, não é nada tão caótico assim. E eu tô ligada que você curtiu! Eu te vi nos cantos se divertindo várias vezes.

- Tá bom, tá bom. - começou a sorrir um tanto sem graça - Teve hora que esteve bom mesmo...

- Então! Ê laiá! Os shows foram fodões né?

- Não começa, eu tô percebendo que você tá de papo pra me enganar e não ir dormir. Eu só cheguei pra te mandar pra cama!

- Mas é massa... Massaroca! Eu tava meio carente, precisando bater um papo, você chegou meio que na hora certa!

- Estou sentindo que você está tentando me rebaixar a seu amigo imaginário, isso não vai dar certo...

- Mas é o que você é... Não Bob?

- Porque diabos você me chama de Bob?

- Now what's Bob gonna do now that he can't drink?

- Você adorou descobrir que eu não posso com bebida né?

- Não é só por isso, eu quis ser gente boa e não te ofender. Na verdade tenho inúmeros motivos pra te chamar de Bob. I have a dog named Bob who pisses on my floor!!!

- Tá me chamando de cachorro é??? Eu não sou um cachorro!

- That's right, I've got a floor!! Linoleum!!!

- Vai parar de cantar e conversar comigo direito?

- Pelebrói!

- Ahm!?

- Pelebrói, NÃO SEI! HUA HUA HUA HUA!!!

- Você sabe o quanto essas pegadinhas com nome de banda são péssimas né?

- Pelebrói!!!

- Não sabe?

- Pelebrói, EU SEI! HUA HUA HUA HUA! Por isso só faço dessas com você! Eu tenho noção do ridículo!

- Às vezes parece que não...

- Por um acaso às vezes parece que eu não tenho NOÇÃO DE NADA?! Hahahahahaha!

- Fica quieta garota! Não entendo como você consegue continuar toda espevitada a essa hora...

- Ok, vou dormir, mas antes eu preciso comer.

Ela foi pra cozinha com ele agarrado no seu ombro.

- Não vá preparar uma bomba gastronômica, vai ter pesadelos!

- Você me lembra minha mãe... - e foi pegando um prato de brócolis na geladeira.

- Brócolis? Você vai comer brócolis às seis e sete da manhã? Quando você vai perceber que essa sua obsessão com brócolis começou a ir longe demais?

- Não vou começar a perceber. Eu percebi antes dela existir. Mas não me enche...

- Vai te fazer mal...

- Claro que não! Brócolis é saúde! Sabia que a minha mãe diz que brócolis não tem calorias? Hahaha! Depois ela se retrata dizendo que deve ter tipo dez calorias! Um dia ela chega lá!

- Você podia explicar pra ela...

- De novo? Nããão! Ela vai se corrigindo com as minhas caras de "não diga uma bobagem dessas"....

- Aliás você devia fazer essa cara de vez em quando no espelho. Às vezes você fala demais.

- Vaca amarela!

Subiram pro quarto quietos. E caíram no sono assistindo "Comando Delta" na tv a cabo.

posted by Lori  # 3:13:00 PM

quinta-feira, março 11, 2004

Capítulos 


- Ah! Você me contou isso!

- Sério? Nem me lembro. Isso que dá sair falando sem pensar. E esquecer tudo que falo. Hoje é capaz de você já me conhecer melhor do que eu mesma me conheço... E tem o que? Três vezes que a gente se encontrou e ficou assim num buteco falando aleatoriamente?

- Quatro já...

- Então! E eu falando, e você monossilábico, e eu me esquecendo, e você lembrando. Realmente, boto minhas fichas que você já me conhece melhor do que eu.

- Não exagera vai. Olha a paranóia emergindo!

- Tá vendo? A gente só se encontrou quatro vezes e você já conhece minhas paranóias. Isso é perigoso. Se bem que você deve ter muita informação sem update. Eu faço update dos meus pensamentos sabia?

- Não, não. - disse ele rindo - E como é isso?

- Não é que eu me contradigo sabe? É que eu mudo de idéia, na verdade eu mudo de idéia constantemente, e às vezes elas se contradizem. Mas nada proposital do tipo "me arrependi e vou mudar de idéia", geralmente eu nem lembro da primeira idéia e surge a segunda. Aí eu vou contar pra alguém que tem memória, assim como você, e a pessoa solta aquela: "Você está se contradizendo! Lembra quando você disse isso, isso e aquilo?" e quando eu respondo um sincero "não" ninguém acredita em mim. Você acredita em mim?

- Na maior parte das vezes... Eu acho... É, eu acho que sim.

- Então, é porque você só me encontrou quatro vezes. Porque com os anos você acaba percebendo que na verdade as idéias ficam se repetindo em ordem, mudam um pouco de contexto mas são sempre as mesmas idéias. E que no fundo uma não anula a outra. É só uma questão de ponto de vista. Não há como não acreditar em mim.

- Você tá querendo me dizer que se contradiz por uma questão de ponto de vista???

- Não, acho que eu usei a palavra errada. Eu não me contradigo, eu mudo de ponto de vida. Referencial. É como se fosse um ponto de vista de outro momento na vida. É quando você tem outros estímulos, outras experiências, e isso influencia naquilo que você tá pensando... Tá dando pra entender ou está ficando complexo demais pro nosso nível alcóolico?

- Tá sim.

- Você acha que eu tô falando bobeira? Acha que isso é papo de bêbado?

- Lá vem mais uma! Alguém já comentou que você é muito insegura?

- Claro, isso é a parte óbvia! Mas por um acaso você percebeu que eu sou muito segura na minha insegurança?

- Ahn???

- É, repara bem, na verdade ela é uma espécie de desculpa pra titubear. Eu primeiro convenço a todos que sou absolutamente insegura, depois disso eu posso sair tremendo, cambaleando, é que daí em diante eu tenho um aval. Do tipo "ah, mas é claro que ela está cambaleando, ela está insegura!". Imagine uma pessoa andando na corda bamba.

- Pior que você tá conseguindo fazer sentido.

- Claro que faz sentido! Tudo que eu falo faz sentido! Não que eu encontre ele antes de falar, mas com certeza se você precisar de um eu invento. Agora é sério, imaginou o cara na corda bamba?

- Sim, sim, continua.

- Então, se tiver uma rede de proteção ali embaixo ninguém bota fé no que ele tá fazendo, aliás, qualquer um pode andar numa corda bamba com uma proteçãozinha embaixo. Se cair tá salvo. Pode-se cair entende?

- Aham.

- Então, se ele tira a proteção ele fica correndo o risco de se machucar ou até morrer se cair, ele fica inseguro. Todo mundo acha normal que ele trema. A falta da rede dá o aval da insegurança, entende?

- E você pensou nisso tudo antes de convencer a todos que era insegura.

- Não. Não sei. Talvez tenha pensado e tenha tornado isso um hábito até me esquecer de que realmente pensei naquilo. Talvez não. Acho que eu só sempre fui insegura mesmo. Talvez eu tenha buscado ser mais segura e na minha total incapacidade de anular minha insegurança eu me senti segura dentro dela.

- É melhor cair e morrer?

- Claro, se for pra cair, caia direito. Mas pelo menos, enquanto você não cai, todo mundo vai te dar muito mais moral. Até você mesmo.

- Como assim você mesmo?

- É ué! Você é um conjunto de todos os integrantes do teatro que é a sua vida.

- Hein?

- Você é o roteirista, protagonista, iluminador, diretor, tudo! Se você é tudo você também está na platéia. Talvez só você seja a platéia.

- E aonde eu entro na sua vida?

- Hmmm boa pergunta. Não sei. Talvez sua equipe se junte à minha a cada vez que nós nos encontramos. E fazemos capítulos iguais pra histórias diferentes... Faz sentido né?

- Heis que surge a paranóia dos sentidos!

- Se você ficar analisando minhas paranóias eu vou ficar mais paranóica.

- Tá bom, tá bom, parei.

- E para de rir de mim! Eu não sou palhaça!

- Palhacinha! Linda!

- Pede mais uma vai...

- A gente vai ficar aqui só bebendo? Não vamos deixar esse capítulo conjunto de nossas histórias distintas ficar mais interessante?

- Vamos.. Vamos sim... Mas só depois que o bar fechar...

posted by Lori  # 5:35:00 PM

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